Talvez exista uma comparação interessante entre o que o cigarro representou para a Fórmula 1 e o que as bets representam hoje para o futebol.
Durante décadas, as marcas de cigarro praticamente fizeram parte da identidade da Fórmula 1.
A famosa Lotus de Emerson Fittipaldi, campeã mundial de 1972, não era, na verdade, preta e dourada.
Esse era o layout da marca de cigarros John Player Special.
Isso só ficou evidente quando a equipe trocou de patrocinador e o carro passou a ser amarelo, o da Camel.
A McLaren vermelha e branca de Ayrton Senna, simplesmente, reproduzia as cores do maço da Marlboro.
Escuderia de F1 não tem, necessariamente, uma cor própria. O vermelho da Ferrari é uma das raras exceções.
Até que a sociedade decidiu mudar.
O cigarro não desapareceu. O que desapareceu foi o espaço que ele ocupava na vida cotidiana.
Antes, havia áreas reservadas para fumantes em bares, restaurantes, cinemas e até dentro dos aviões. Algo impensável nos dias de hoje.
Aos poucos, isso deixou de ser aceitável.
O produto continuou existindo, mas foi retirado da publicidade e, com isso, do imaginário associado, principalmente, ao estilo de vida.
Talvez esse seja o ponto mais interessante quando olhamos para as bets.
Elas estão nas camisas, nos estádios, nas transmissões, nos programas esportivos e associadas a clubes e ídolos.
E aí surge uma questão que talvez seja mais inteligente do que simplesmente perguntar se as bets devem existir ou não, diante do mal que podem causar às finanças e à saúde mental das pessoas.
Será que a primeira medida para enfrentar o problema do vício não seria retirar o glamour da publicidade em torno dele?
Proibir a publicidade personalizada com famosos e influenciadores, reduzir a superexposição nas mídias, principalmente na televisão, talvez seja um começo para frear algo que comprovadamente está fora de controle.
O cigarro já ocupou esse lugar. E a sociedade, com o tempo, encontrou uma maneira de praticamente tirá-lo de cena, sem precisar fingir que ele deixou de existir.
A Fórmula 1 não acabou quando retirou a publicidade do tabaco.
Diferentemente do que parecem acreditar, os grandes clubes do Brasil, o futebol também não acabará sem a propaganda associada às bets.
O futebol é o esporte mais popular do planeta.
Porém, o esporte do povo não pode ser o responsável em transformar o sonho de ganhar em realidade de perder.